terça-feira, 6 de outubro de 2009

Luxúria

Vou sentir com tato
Dilatar papilas
Aguçar olfato
Salientar membranas e mucosas
Ouriçar mamilos a cada ato
Fazer exalar dos poros
Dos quatro cantos erôgenos
Toda afável lacívia
Toda líbido em cheiro
Todo líquido em espasmo
Todo gozo em convulsão
Toda contração em orgasmo
Na sodomia involuntária
No delito do deleite
Ser cumplice e conivente
No arroubo da mútua indecência
Isentar a culpa de supostos excessos
Somente permitir o enlevo da luxúria.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Peixe Migrador

Vivo nas profundezas das marés
Indo e vindo ao léu das águas
Navego, pego carona nas correntes marinhas
Me deixo levar, desprendido.
Vago com meu olhar pesqueiro,
Entre cardumes de xerelete.
Fisgo no dispersar das barbatanas
O sofrimento da vítima almejada
Ouso de longe o canto das baleias
Clamor agudo, súplicas em código Morse

Refém de Sádicos e Outros Autores

Leio palavras alheias
Como quem pula amarelinha
No espelho, brinco de faz-de-conta
Conjugo verbos de outrem
Finjo ser, sem saber
Finjo até pensar, sem querer
No arremedo da prosa, não sou ninguém
Não me encontro nas entrelinhas
Porém... Abro a janela-papél-imagem
Vagueio, enternecido, entre capítulos
Desdobro-me perdido na linguagem.
Refém inócuo da ficção
Sou um leitor incauto no labirinto da trama,
Marionete hipnótica do sádico autor.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Desejo da Fome

Como não haveria deixar?
Depois de tão fogosa súplica,
Deixo que fique, que coma...
Que se lambuze, com toda gulodice
Pois que faça da gula minha fome
Que a farta ânsia alimente a sensação
E a angústia do acúmulo de tesão
Tempere em sabor o farto banquete.
Quero comer cada pecado, cada porção
Com a avidez da cumplicidade,
Mas sem a culpa da voracidade
Pra que talheres?
Temos dedos e mãos,
E temos línguas e membros
Temos, principalmente, o desejo da fome.

Netuno

O que se passa, meu caro?
Não me venha com velhas confusões
É fato que já passou
Esta roupa já não lhe cabe mais
Seus sentidos, assim como seu contorno,
Tudo em ti mudou, meu velho.
Também não lhe cabe mais o naufrágio do passado
O vai e vem da maré, remexe sedimentos,
Revira os resquícios da lembrança,
Deixa turva a transparência da visão
Quer saber meu amigo?
Somente lhe cabe a limpidez de águas claras
Sobre o reflexo do céu, desenha o rumo da esperança
Meu caro, meu velho, meu amigo...
Toque o barco, sem perder o prumo.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Ponto ação

No fraquejo do dia,
Lá no fim da labuta,
Amasso esbravejos
Resumo o passar da vida
Sem calvário, sem cortejos
Vejo passar o vento
Faço do tempo um sobe e desce figurado
Esbanjo ternura na lembrança
Passo a língua acima dos lábios
No gesto de amparo à lágrima,
Tromba d’água no vinco da face.
Com três letras acabo com tudo
Basta um “Fim” pra terminar o mundo
Um ponto pra encerrar a frase.
Com três pontos deixo a dúvida,
Reticente, na transparente imaginação...

sábado, 9 de maio de 2009

Brinquedo de Bar

Bebo e aponto poesias na mesa do bar
Indagativo, não sei se leio ou escrevo
Prefiro a dúvida, moléstia de quem pensa
À inanição, sofrimento de quem ama
Entre pesos, medida e escolhas
Me amparo aos cotovelos
Que de tanta amargura
Enrijecem em calos e rugas
Retorço meu pescoço feito coruja
Suplicando aparição da presa
Enquanto a comida não vem
Me distraio entre letras e copos,
Até que a dúvida se dilua
Até que o amor me consuma
Até que a conta me empobreça
Até que o garçom me esqueça
Até que eu canse de brincar com palavras.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

O Jogo do Medo de Amar

Tive medo de jogar
Ver o dado dar cambalhotas
Girar, rodopiar sobre si
Mostrar números incertos
Tive medo de jogar
Tirar a carta
Montar o jogo de naipes
Mostrar combinações possíveis
Tive medo de jogar
Girar a roleta
Enquanto a bola a tilintar
Mostrar a casa, a cor e saltar
Tive medo de jogar
Fazer uma fé na milhar
Cercar pelos doze
Pra ver o bicho que dá
Tive medo de jogar
Lançar os búzios
Mostrar ao acaso da vida
O caso que será
Tive medo de jogar
Virar a carta do tarô
E no simbolismo de tentar
No jogo do medo do amor
Perder o medo de amar

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Festa de Jorge II

Permeando aquele espaço
Entre feras e outras bestas
Saquei da lança, desci do cavalo
Cambaleei ritmado procurando o prumo
Já dançando embalado no rumo
De tal feito me dei conta
Do tempo que a lembrança remonta
Perambulei atrás da cronologia
Escutei na cantiga o arremedo
Refrão cantado em coro
Gingado de pé arrastado na melodia
Difuso no arremate do repente
Clamei por Jorge novamente
Valei-me Jorge!
Joguei caxangá ao som do carimbó
Veio o côco, troquei perna
Rodopiei, quase dei um nó
Salve a festa moderna
Aquela que de ano em ano
Que no dia do santo
Sobe ao Espírito Santa
Lá onde tudo cabe
Onde tudo mexe
Onde o mundo é miudinho
Feito isso...

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Chuva de Verão

Rufa trovão!
Enquanto o vento açoita a chuva
Um rio de luz se engarrafa
Centopéias de máquinas transitórias
Fazem coreografias caóticas
Clareia relâmpago!
Enquanto uma cortina de água baila com o vento
E eu, pasmo, olho tudo da janela
Um autorama em dimensões reais
Escuto a melodia do temporal
Vento, relâmpago e trovão
Encenam a peça magistral
Natureza viva
Assisto tudo admirado
Chuva de verão!